Estrelas além do tempo | Linateca
- Raíssa Ferreira
- 16 de abr. de 2018
- 4 min de leitura

Antes de ler essa resenha preciso explicar algumas coisas:
1. Sou uma mulher.
2. Assim como a maioria das personagens desse livro, sou mãe e faria de tudo pra dar um futuro pra minha filha.
3. Sou negra, e essa é minha visão do que li nesse livro. Me orgulhei profundamente mas também me magoou muito.
Então, vamos lá...
O livro Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) conta a história de mulheres negras que trabalhavam na NAACA, atualmente conhecida como NASA, Agência Espacial Americana. Elas são responsáveis pelo lançamento da nave que colocou em órbita o primeiro norte americano (John Glenn), essas mulheres eram empregadas como "computadoras" pois eram extremamente inteligentes e ágeis em cálculos.
Contando de forma clara e precisa a história de mulheres como Dorothy Vaughan que trabalhou lá durante a maior parte de sua vida, a obra pode parecer complicada e um pouco técnica em alguns momentos explicando cálculos e teorias, acredito que seja para explicar a vida de uma matemática precisamente.
Vale a pena muito a leitura e reflexão. Porque? porque é importante ser grata(o) por tudo o que essas mulheres passaram para nos dar lugar de fala em um campo tão pouco ocupado por mulheres negras como o campo de ciências exatas e em qualquer outro lugar.
Logo no início do livro temos uma nota da autora dizendo que se manteve fiel aos termos "pretos, de cor, índios, garotas" para expor melhor o período histórico e as dificuldades dessas pessoas.

Lembrando que em meados de 1944 mulheres e negros não tinham espaço na sociedade, se você fosse mulher E negra as chances desciam a ZERO.
Mas isso não foi suficiente para calar mulheres como Dorothy Vaughan, Katherine Johnson, Mary Ann e muitas outras. As histórias que são apresentadas a nós com tanto carinho e pesquisa contam a trajetória dessas mulheres extraordinárias que seguiram carreiras como físicas, engenheiras, matemáticas etc.
Indo contra a corrente do que era imposto pelo regime segregado da época, essas pessoas ousaram ser e ter lugar na sociedade como modelos para suas irmãs de cor.
Mulheres que foram muito a frente do seu tempo, ou melhor a frente das injustiças de seu tempo. Essas mulheres sacrificaram sua vida pessoal, o tempo com seus filhos e família por conta das duras cargas horárias ao qual eram submetidas.

Um ponto que me marcou muito foi ler que elas passavam horas e horas calculando e não tinham o direito de saber sobre para qual era o projeto que seus cálculos seriam usados.
Outro ponto a ser grifado nessa história era o de quando o cálculo estava correto e era escolhido para receber menções honrosas e destaques, essas mulheres não ganhavam nem o direito de ter seu nome em um projeto no qual seu trabalho árduo foi tão crucial.
Essa é uma das caras do Racismo e do Machismo. Ele veta e rouba suas propriedades intelectuais. Outro parágrafo do livro tocou minha alma e consciência de mulher negra. As mulheres eram rígidas consigo mesmas como individuo e como um grupo, internalizando o lema negro que era preciso ser o dobro para chegar a metade do caminho.
Uma pensamento muito parecido como esse já foi dito na série Master of None, pela mãe da personagem Denise. Catherine é interpretada por nínguem menos que Angela Basset.

Curiosidade: O episódio foi escrito por Lena Waithe, a atriz que interpreta Denise ganhou o EMMY e seu discurso foi inspirador.
Voltemos ao livro..
O livro é repleto de menções a personalidades incríveis e feitos maravilhosos de pessoas que conviveram com o racismo todos os dias de sua vida, e mesmo assim travaram batalhas contra as injustiças que eram submetidas.
Katherine Johnson no fim de sua vida disse: O que eu pude mudar eu mudei e o que eu não pude eu suportei.
Há muito ainda o que pesquisar sobre a Historia dos Negros no EUA com base nesse livro. Ambientado na Virgínia no período da Segregação o livro traz debates importantes não só das personagens mas também do cenário do Sul segregado.
Traz a tona informações importantes da época, como por exemplo o papel dos negros na guerra. Esse debate que tanto dividiu a comunidade negra e foi de muita importância, pois naquela época um dos principais impasses dessa questão era o de lutar e perder uma vida toda por um país que só te proporcionava "meia vida".
Cheio desses impasses e debates importantíssimos, o livro nos põe a questionar o racismo de frente e não só o racismo mas também o machismo. Um ponto muito claro do livro que devemos entender é o sentimento de Coletividade e a Sororidade que umas tinham pelas outras (sim, eu sei que tinha o racismo estruturado da época e que as chefes de departamento que eram brancas não eram exatamente sinônimo de coletividade). Mas é bom lembrar de coisas como as mães de muitas que ajudaram a criar os netos enquanto suas filhas varavam a noite com a mesa repleta de cálculos.

Elas se apoiavam como uma grande família, o que era ótimo porque todas passavam pelas mesmas experiências de conviver com a descriminação racial no dia-a-dia.
Nos apoiarmos umas nas outras era e é o melhor a se fazer. O livro é preciso e claro com relação ao racismo, não esconde informações e nem as "floreia". E nem faz das mulheres apenas vítimas, elas lutavam e se batiam de frente com o sistema todos os dias.
A lição que podemos e devemos tirar dele é de que juntas vamos mais longe, não faz sentindo chegar no "topo" quando você está sozinha e pode dar suporte para as mulheres ao seu redor. Dorothy sabia disso e queria que nós soubéssemos.
Sabia também que algumas ou muitas das vezes ser a primeira a fazer ou tentar algo é necessário para todas.
Essa é a maior lição que o livro nos passa e por isso é tão inspirador, é uma leitura obrigatória não apenas para nós mulheres, mas para todas as pessoas que lutam contra desigualdade. Essas pessoas me inspiraram muito e tenho certeza que também vão inspirar você!
Beijo,
Raíssa.

Sobre quem escreve
Oi! Me chamo Raissa. Sou estudante de letras, livreira, mamãe da Antônia e definitivamente, apaixonada por livros.





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